quarta-feira, setembro 24, 2008

Embacio

"Eu escravo do trabalho liberto-me com o Amor!" Nada mais, nada menos, uma folha branca amarrotada em cima da minha secretária, num canto o batom ainda quente de alguém que não se fez esperar. Sento-me e sorrio, no recorte do candeeiro pequeno que me alumia o escritório pude reler mais uma vez a provocação. Verdade, pensei, trabalho demais... mas, quem será? Levanto-me e vou ao corredor que se perdia na luz que logo ali terminava. Não resisti, o perfume fez-me avançar para o desconhecido.
Um jogo, um desafio, um logro, uma piada, estaria disposto ao preço anunciado.
Avancei sem receio com um sorriso meio parvo numa cara marcada pela rotina e algumas provações. Um gesto, sim, sem dúvida, seria um gesto, fugidio, mas um gesto que se perdera no virar do corredor. Acelerei na esperança de não perder o encontro. Agora o peso das minhas passadas faziam-se notar naquele soalho gasto por tantos trabalhos, tempos e contratempos. Contornei o corredor. Um lenço... hahahahaha! Não resisti, soltei uma gargalhada farta, cheia, como um miúdo surpreso com o novo brinquedo. Num movimento lento, numa rotação perfeita, dobro-me para o agarrar. Encosto-o à minha face e retorno à vertical sem o tirar da cara. Inebriado, completamente, com todos os sentidos a despertarem. O que era curiosidade agora era desejo, sim, aventura. Abri a porta que assoma à rua e avistei um carro que acendia os faróis. Arrancou de mansinho e, sem pressas, deu a volta para passar perto de mim. Os vidros embaciados por alguém que fizera espera não denunciavam o condutor. Cabelos longos, sim, soltos na aragem que o ar-condicionado proporciona. Acompanhei-a em passos largos à medida que o carro se afastava. Distinguia agora distintamente um desenho numa das janelas, algo onde um dedo atrevido resolveu provocar. Ao meio um oito deitado, sinal de infinito, rodeado das impressões das suas mãos, como se o quisesse segurar... parei, olhei para a chave do escritório e lancei-a o mais longe que consegui! Haveria de conhecê-la, o infinito é uma eternidade.



Acompanhar o texto com esta música!

7 comentários:

ivone disse...

Mas o AMOR liberta??!!
não sei ... mas não creio...
o perfume que deixa prende os sentidos....
são gestos que se trocam...
lindo texto!!
bjito

mfc disse...

O desejo é importante porque encerra em si o conceito de futuro.

João Mãos de Tesoura disse...

ivone: querida Ivone, minha amiga do "Puertuuu", como "bai" a "inbicta"? :D Aposto que já tens os teus escuteiros em alerta máximo! :D
Se o amor liberta? Sei lá, não fui eu que escrevi o bilhete! :D
"Bolta" sempre, não te acanhes, "oube" lá! :D
Bjs

mfc: e sem futuro não há conceitos! :)
Abraço

Anónimo disse...

Curioso, antes de clicar adivinhei a música que tinhas escolhido para acompanhar o teu aprazível texto.

Xi

S.P.

Andreia do Flautim disse...

Bom fim-de-semana!

€aµ disse...

Oi "Jão"...
Lendo-te lembrei de um poeta dessa banda do mar, que diz assim:
"Só o desejo inquieto, que não passa,
Faz o encanto da coisa desejada...
E terminamos desdenhando a caça
Pela doida aventura da caçada."

(Da eterna procura - Mário Quintana)

Não pude deixar de rir e comcordar com ambos...

O infinito é uma eternidade, e a caçada sempre muito prazeirosa... risoss

P.S.: Ah!!!! Deixa a letra ácida, de doce basta a vida! (risossss)

João Mãos de Tesoura disse...

S.P.: estou preocupado! Já estivemos casados??? lol Imagina se estivessemos, nunca te poderia enganar! :D
Beijos

andreia: natal e entradas! :D
Beijos

Cáu: quem tem caça sua, que a saborei e não partilhe! :)