terça-feira, novembro 07, 2006

Prós e Contras

No programa de ontem de Fátima Campos Ferreira, Teixeira dos Santos esmagou a concorrência. De forma clara, simples, elucidada, explicou o que se fez e o que se fará ao nível das finanças, e desmontou as armadilhas de Medina Carreira e Octávio Teixeira, verdadeiros Velhos do Restelo. Brilhante! Um verdadeiro gentleman com sangue de político, no melhor dos sentidos. Terá brevemente na rua a contestação da Função Pública, representada por sindicados que brandam argumentos que só convencem os afectados mas não a população em geral. E se na implementação de reformas se cometem injustiças, podemos dizer que este esforço é justo no essencial, havendo, isso sim, uma falha clara de comunicação das políticas orçamentais para que parte das dúvidas e angústias se dissipem. Surge agora, oportunisticamente, uma oposição que insiste numa reforma mais radical. Contudo, ninguém foi tão longe e de uma forma tão frontal, honesta e competente. De Cavaco a Guterres vimos crescer a dívida pública com a criação de regalias absurdas ou com a admissão de funcionários desnecessários. Pagamos agora esta factura. Vejamos os números mais recentes:



Como sabemos, ao longo dos anos a contabilidade do Estado tem sido mascarada com habilidades que agora são evidentes; abusou-se das receitas antecipadas e das extraordinárias. O endividamento do Estado era em 2005 de 94 mil milhões de euros. Se transportamos este valor para uma população de 10 milhões de pessoas, havia uma dívida pública (1) de 9.400 euros por habitante. Se isto não é uma herança pesada, então não sei o que será uma má herança!
Analisemos a evolução das rubricas entre 2005 e 2007, sendo certo que este último orçamento ainda é previsional. Acredito, contudo, que se cumpra.
A despesa, embora aumente em valor absoluto, diminui em valor relativo (de 47,8% para 45,4%), i.e. gastamos menos em função do que ganhamos. Falamos aqui de contenção.
A receita, embora aumente, mantém o mesmo peso (41,7%) no PIB (2). Assim, o Estado exige da sociedade o mesmo esforço para a colecta de receita que exigia em 2005. Números são números!
Naturalmente, sendo a despesa maior do que a receita ao longo dos anos, o que justifica a dívida pública, o saldo anual (diferença entre a receita e a despesa) é negativo. Contudo, o défice, embora aumente em valor absoluto, diminui drasticamente em valor relativo (de 6% para 3,7%). Vamos no bom caminho.

Conclusão: o País tem uma dívida muito complicada que cresce a cada ano que passa. Nos últimos dois anos este crescimento tem arrefecido, o que é um sinal claro de contenção. Nenhum País ou empresa sobrevive com défice elevado, sobretudo porque é necessário financiar a dívida e, assim, pagar juros a terceiros. O peso do Estado na Economia é monumental, representando quase metade da riqueza de Portugal. Este valor prende-se, por um lado, à estrutura sobredimensionada do Estado (recursos humanos, imobiliários, etc.) e, por outro, à lógica do Estado Providência (é o Estado que garante ao cidadão grande parte das suas regalias sociais).
Temos de ser realistas, o País só é competitivo num mercado global se for ágil e se dinamizar o investimento. O contrário traduz-se em menor poder de compra, mais falências de empresas, maior desemprego, em suma, maior exclusão social. São tempos de sacrifício e não devemos confundir direitos adquiridos com regalias perpétuas. Se não dermos o exemplo, se não fizermos todos um esforço, serão as futuras gerações a pagar os nossos devaneios. Exige-se responsabilidade nas reivindicações sociais, é necessária uma cidadania consciente. À frente das ideologias está a panela; são necessárias reformas estruturais, pactos de regime e muito trabalho!


"Dou a vida pela minha missão!"

Não sou socialista nem católico, mas vou a Fátima colocar uma vela por este gajo!


(1): como se financia a dívida pública se o Estado não consegue ter lucro, i.e. uma vez que as despesas são superiores às receitas? Esgotados os impostos (directos e indirectos) no saldo anterior, o Estado socorre-se da emissão de Obrigações do Tesouro, Bilhetes do Tesouro e Certificados de Aforro, podendo ainda recorrer à linha de crédito Euro-Commercial Paper e, excepcionalmente, à emissão de instrumentos de médio e longo prazo em moedas não-euro.

(2): O produto interno bruto (PIB) representa a soma (em valores financeiros) de todas as riquezas finais produzidas numa determinada região ou parcela da sociedade (cidades, concelhos, país, etc.), durante um período determinado (mês, trimestre, ano, etc). Para os efeitos desta texto o PIB diz respeito a Portugal. A variação do PIB permite-nos avaliar a evolução da economia. De 2006 para 2007 prevê-se um crescimento real do PIB em 1,4%.



Nota: quem tiver interesse por estas questões pode consultar o Orçamento de Estado para 2007.

10 comentários:

Andreia do Flautim disse...

E ainda dizem que não estamos em crise!

Cucagaio disse...

O problema é que com todas estas "soluções", ainda assim não é suficiente para resolver o problema. E há alturas, em que deveria ir mais além do que foi, e não foi. Porque será? Normalmente conincide com certos interesses dos próprios politicos, ou seus associados. Enfim, fica para outra legislatura, daqui a 20 anos.

mfc disse...

Continuo a duvidar!
Há sinais muito contraditórios...

Jorge A. disse...

João,

até posso concordar que o ministro está a fazer um bom trabalho. Mas há certas coisas que não concordo com o teu post, aqui vão:

1ª não vejo onde o Medina Carreira seja um velho do restelo e o ministro tenha desmontado as suas armadilhas. Já quanto a Octávio Teixeira, basta dizer que trata-se de um comunista, e portanto a sua visão da economia é totalmente desadequada do mundo actual globalizado.

2ª vou-te dar o exemplo de uma armadilha. O ministro constantemente referiu a subida da despesa no tempo do governo com Ferreira Leite na pasta das finanças, esqueceu-se de referir que tal era inevitável com o aumento do desemprego (subsidio de desemprego aumenta).

3ª depois teve a lata de defender o governo de Guterres, que aumentou o lote de funcionários públicos no seu mandado em mais de 100 mil, causa para o problema actual. Claro que quando Medina Carreira referiu que foi a descida dos juros que permitiu a Guterres fazer o que fez, espero que tenhas reparado como Teixeira dos Santos não replicou a esse comentário.

4ª as receitas extraordinárias não tem nada de negativo, porque as mesmas permitiram que Ferreira Leite mantivesse o défice abaixo dos 3% sem exigir um esforço descomunhal aos portugueses (e mesmo assim exigiu muito). É preciso não esquecer que com Ferreira Leite o PEC era muito mais restritivo (os 3% eram obrigatórios); com a chegada do PS ao governo o PEC foi suavizado, o governo não tem utilizado receitas extraordinárias, mas o défice está bem acima dos 3%.

5ª na reforma da Segurança Social, ainda não foi desta que foram para o regime misto, mas dou-te 5 a 10 anos para Portugal adoptar um sistema misto.

6ª referes a herança pesada que este governo recebeu em 2005, pois mas a mesma vem de 2001, do tempo do engenheiro guterres.

Devo-te dizer que gosto do que este ministro das finanças está a fazer, da mesma forma que gostei do que Ferreira Leite fez. E não foi o tempo conturbado de Santana Lopes (3 meses apenas) que me vai fazer esquecer a herança positiva de Ferreira Leite: foi ela, quando o PS só sabia falar, que pôs a luta ao défice na agenda politica. E aí, meu amigo, o que se assiste hoje, é uma vitória de Manuela Ferreira Leite.

O que o ministro faz, faz bem (nem tudo)... mas muito do que ele diz, diz mal... é só conversa politica.

João Mãos de Tesoura disse...

andreia: estamos a sair lentamente da crise, mas que a há, há.

cucagaio: deixa-me dar-te um exemplo. A reorganização de uma empresa pode ser faseadamente ou em big-bang (reengenharia). As mudanças radicais têm riscos muito elevados e obrigam a grande qualificação dos funcionários e à utilização em larga escala das novas tecnologias. Concordo que as mudanças têm de ser mais abrangentes. Contudo, para o ano de 2007, elas são muito ambiciosas. Vimos ao longo dos últimos 30 anos que nada foi feito estruturalmente, tirando as infra-estruturas criadas no tempo do Cavaco. Vamos ver o que acontece, acho que a visão é correcta e o método utilizado é sensato.

mfc: de facto, um ministro só pode ser julgado depois do seu mandato.

jorge: as questões que levantas obrigam a uma resposta detalhada, ponto-por-ponto. Mas antes de te responder, deixa-me dizer-te que ninguém faz tudo perfeito. Contudo, parece-me que este ministro é, de longe, o mais clarividente desde a revolução. Se não vejamos:

1. O Medina Carreira, desde que foi ministro das finanças, tem sido o arauto da desgraça. É um bom técnico, indiscutivelmente, mas ressabiado. Disse várias vezes no programa que o Orçamento tinha sido feito sem rigor, que as medidas propostas não iam ao fundamental, que os processos pendentes anos a fio por questões fiscais são o verdadeiro problema.
Primeiro, o orçamento não está mascarado como tantos outros que já vimos. Não encontras habilidades contabilísticas, nem receitas extraordinárias ou antecipadas. Assim, Medina Carreira falou por falar.
Segundo, as medidas apresentadas são as de maior transformação da Função Pública desde que há memória. Desde a banca até aos pensionistas, desde a educação até à justiça, desde as autarquias até às regiões autónomas. Há uma lógica de rigor e dizer que as medidas são avulsas denota em Medina Carreira algum desnorte.
Terceiro, nunca houve desde o estado novo uma preocupação tão grande com a evasão fiscal, e vais reconhecer que os resultados têm sido muito positivos.
O problema de Medina Carreira é ser um mero economista, falta-lhe a visão política e quando sai dos números tem conversa de café. Colocou os problemas como insolúveis, como um drama que o governo não está a resolver. Pelo que vimos, nada mais falso.

2. Meu caro, ao nível macro-económico não foi o subsídio de desemprego que empolou a despesa corrente. Como sabes, muitas das suas rubricas estão para além da acção social. Ferreira Leite, a meu ver, foi das piores ministras das finanças, embora seja uma técnica de valor indiscutível. De facto, teve uma visão contabilística da economia. Os cortes não tinham uma lógica subsequente, razão bastante para Durão ter abandonado o governo com algum alívio. Vejamos algumas medidas: antecipação de receitas e receitas extraordinárias (venda da rede fixa à PT, privatizações, etc.). Segundo ela para evitar o aumento de impostos; i.e. transferir uma responsabilidade da sociedade actual para a sociedade futura. Brilhante! Vão-se os anéis mas ficam os dedos.

3. Não sei se vimos o mesmo programa, mas não me recordo do ministro defender o Guterres. Aliás, nem pode. Embora não tenha participado em nenhum dos seus governos, Teixeira dos Santos sabe bem quais as razões objectivas da nossa desgraça. E são três. A destruição de riqueza durante o PREC (equilibrada de seguida por um ministro social-democrata, Hernâni Lopes, num governo socialista dirigido por um pouco eficaz Mário Soares, o que levou a que não se pagasse o 13 mês para conter o défice), a criação de regalias na Função Pública no tempo de Cavaco que permitiu uma escalada dos vencimentos e reformas, e o recrutamento de cerca de 120 mil funcionários no tempo de Guterres.
Se Guterres teve a ajuda de um clima económico mundial favorável, já Cavaco teve ajudas comunitárias indiscutíveis. Nenhum foi bom, a herança está aí.
A concluir, nunca tivemos um bom primeiro-ministro, basta olhar para a Espanha e perceber a visão redutora dos nossos. Penso, embora não seja socialista (fui social-democrata em adolescente, hoje sou um liberal social), que este poderá ser o melhor governo desde após a segunda dinastia!

4. Quanto às receitas extraordinárias e aos anéis que ela nos tirou, já comentei no ponto anterior. Quanto ao cumprimento do PEC o teu argumento explica de per si que o nosso défice não era de 3%. Deixa-me dar-te um exemplo mais perceptível. Se uma empresa tiver um resultado operacional negativo e resultados extraordinários que colmatem esse défice (e.g. mais valias em títulos), apresenta um resultado líquido positivo e pode assim parecer interessante aos olhos dos investidores. Tivemos este exemplo na nossa economia, chama-se Pararede. O que a Manuela Ferreira Leite fez foi o mesmo; i.e. o défice era superior ao anunciado e os resultados extraordinários não deviam ter sido utilizados pois não são um resultado operacional da economia. Isto, meu caro, é batota!

5. Ninguém afirma que o actual sistema é perfeito. O que se questiona é a oportunidade imediata. De facto, um político tem de ver para além da economia. Num momento de profunda reestruturação, em que o PRACE foi lançado para Janeiro de 2007 para não introduzir mais contestação social, seria imprudente criar mais uma frente de confronto. Contudo, o sistema misto pode não ser a única solução. Como sabes, pode recorrer-se a outros instrumentos de financiamento para além da taxa social única. Nisso Octávio Teixeira tinha razão.

6. Dei-te a resposta a esta questão nos pontos 3 e 4. A herança é de vários, a passar por Cavaco e Guterres.


Quanto aos "finalmente", a Manuela Ferreira Leite introduziu uma gestão preocupada com o défice. Mas essas medidas foram meramente contabilísticas, sem uma lógica racional de criação de valor pelo lado da receita. O desemprego aumentou no tempo de MFL, o contrário tem-se verificado com Sócrates; hoje temos mais 48 mil postos de trabalho.
Quanto à "conversa política" é um erro de economista ignorá-la. De facto, ela é o culminar de tudo, é a razão que nos leva a seguir um líder e a motivar um povo. É através dela que se encontram razões para além da criação de riqueza, onde a crença em valores comuns deve orientar a conduta da sociedade. Dar a entender que a política não interessa é o mesmo que dizer que numa empresa a estratégia e a área comercial não são fundamentais.

Embora discorde de ti, gostei do teu comentário estruturado e leal. Comenta sempre que quiseres.

Abraço

Jorge A. disse...

João,

1- as medidas de certa forma são avulsas, porque a maior parte delas servem para cortar na despesa aqui e ali, mas não alteram o paradigma da economia (menos estado e mais sociedade). O estado providência actual está a morrer, e o governo PS quer manté-lo vivo à força. Nisto, diga-se, todos os governo que passaram por Portugal foram iguais. Não passou nenhum governo que quisesse limitar o poderes do Estado.

2- a taxa de desemprego era de 4% em 2001, em 2005 atingia os 7,6%. Isto teve um impacto enorme na despesa pública. Vê o quadro da página 11 do relatório do Banco de Portugal:
http://www.bportugal.pt/publish/relatorio/Cap6_05_p.pdf
Vais ver que o que a Ferreira Leite fez, fez bem. Tens de compreender que a Ferreira Leite foi obrigada a fazer uma travagem a fundo... não era possível andar a tentar inventar um PRACE... parece-me a mim.
Também não vejo onde as receitas extraordinárias tenham servido para transferir uma responsabilidade da geração actual para gerações futuras. É que estas receiras ao baixarem o défice, permitiram que a divida pública não aumentasse ainda mais. Por falar em privatizações o que foi a venda de parte do capital da GALP realizada recentemente?

3- Teixeira dos Santos participou num governo Guterres como Secretário de Estado do ministro das Finanças. Foi por isso mesmo que se viu obrigado a defender o periodo guterres.
Não sou defensor de Cavaco Silva, mas a única grande reforma estrutural feita em Portugal que tenha influenciado a nossa economia de forma positiva, e que não foi provocada por um choque externo, foi a privatização de uma série de empresas a partir de 1989. De resto, desde o 25 de Abril, todos os nossos periodos bons e maus devem-se a factores externos: aumento do preço do petróleo, baixa do preço do petróleo, diminuição dos juros da divida pública, transferências da União Europeia. Sempre tivemos problemas a nível da balanças de pagamentos... sempre quisemos consumir mais do que aquilo que conseguimos produzir... é, temos mesmo uma economia fraquita.

4- não é batota, porque era feito às claras, e a comissão europeia aprovava. Continuas sem me explicar uma coisa, Ferreira Leite foi quem teve de travar a fundo, e mesmo assim precisou de receitas extraordinárias. Se não fosse essas mesmas receitas como é que iria manter o défice abaixo dos três por cento. A venda de património não me causa nenhum problema, e se há coisa que o Estado tem a mais é património que não lhe serve para nada. E além do mais, os orçamentos de Teixeira dos Santos também tem receitas extraordinárias, não é um valor tão alto quanto o anterior, mas lá estão, e sem elas era impossível cumprir as metas impostas por este governo.

5- Eu não gosto de olhar para a Segurança Social como um imposto e como um instrumento para fazer justiça social. A redistribuição de riqueza deve ser feita pelo lado dos impostos. A segurança social é um seguro para a reforma. Daí que a única solução que vejo é a evolução para um sistema misto. Para pessoas com baixos rendimentos é que aceito que parte da sua pensão seja paga recorrendo a impostos, para não irem buscar as contribuições dos outros pensionistas.

6- essa da herança é de todos, incluindo de Cavaco, é uma mistificação para desculpabilizar o Guterres. Bastava que Guterres não tivesse aumentado os funcionários públicos no número em que os aumentou para hoje estarmos sem problemas.

O desemprego aumentou no tempo de Ferreira Leite!!! Achas que era possível com qualquer outro ministro da finanças naquele período e com medidas de controlo do défice contraccionistas ter-se mantido estável? O desemprego aumentou porque tinha que aumentar. Com este governo está a diminuir, mas parte da diminuição devem-se a medidas estatisticas que o governo adoptou.

A politica como é óbvia deve ser acompanhada pelos economistas, mas a politica actual em Portugal é dificil de acompanhar. Em primeiro lugar porque o PSD e o PS são cópias autênticas um do outro. O PSD ainda ensaia um ou outro discurso mais liberal, mas sempre que tem tido assento no governo não faz nada disso, porque adora o estado social que temos. O BE e o PCP são partidos com os quais eu já não posso mais com aqueles discuros arcaicos e que têm visões da economia com as quais discordo totalmente. O CDS, pode ser um tanto ou quanto liberal na vertente económica, mas é dos mais conservadores na vertente social. Basta ver Paulo Portas, que na campanha eleitoral o melhor exemplo que dava da sua governação era a de ter salvo uns empregos numa empresa qualquer... usando para isso o dinheiro do Estado. Até Paulo Portas, do CDS, a melhor medida sua que tinha a apresentar, era uma medida de carácter socialista.

Depois quando se acompanha o discurso dos partidos na oposição e no governo percebe-se como a politica em Portugal está de cabeça para o ar. Vai consultar artigos sobre o que o PS dizia quando era oposição a Ferreira Leite, vai agora ver o que faz (SCUT's, taxas moderadoras, subidas do IVA, obsessão com o défice, ataque aos funcionários públicos, etc...). O PSD, agora tem de ser mais contido porque saiu recentemente do governo com medidas semelhantes às de este governo, mesmo assim ensaia tiradas do género: governo está contra os funcionários públicos, somos contra o TGV (quando António Mexia tinha decidido avançar para a construção do mesmo), e de resto tem uma enorme dificuldade em fazer oposição porque o governo está a fazer em certos aspectos o que eles iam fazer, ou melhor ainda, o que eles gostavam de ter feito. Por isso tiveram de pegar com unhas e dentes na questão da segurança social, o único aspecto onde o governo fez o que não devia ser feito.

Eu ligo muito à politica, não ligo é ao discurso dos partidos politicos, é politiquice...

João Mãos de Tesoura disse...

jorge:

1- A despesa não está a ser cortada aqui e ali. Falemos dos cortes. Os primeiros cortes tinham que ver com
decisões passadas. Interromperam-se os processos para a construção de 10 hospitais e de vários tribunais. De facto, só na região de Tomar (herança do Cavaco) há 3 hospitais sobredimensionados (Tomar, Abrantes e Torres Novas) que têm pisos por utilizar. Quanto aos tribunais, o problema não se colocava nas infraestruturas mas sim na legislação (libertar mais processos para outras instâncias) o que foi feito e vai continuar a ser feito (e.g. execuções de crédito mal parado). Como vês foram mudanças estruturais. Continuando. Reformulação da lógica de reformas dos deputados, da admissão e avaliação dos professores, da progressão das carreiras, do financiamento das regiões autónomas e das autarquias, da comparticipação nos actos médicos e na medicação, na reestruturação da Função Pública (PRACE - previstos 100.000 funcionários para o quadro de excedentários e abolição no início de 2007 de cerca de 300 organismos públicos), na definição de novas fórmulas para a Segurança Social, etc. Nunca em Portugal se reformou tanto na procura de maior eficiência (falo aqui só dos custos).

2- O desemprego aumentou significativamente no tempo de Durão Barroso e de Pedro Santana Lopes. A preocupação da Ferrreira Leite prendeu-se só com cortes radicais na despesa, comprometendo a economia que dependia da função pública. Neste governo aposta-se com visão no investimento privado, embora os Media empolem mais o encerramento de empresas do que a criação de novas undidades. Basta ver o desemprego a cair, a economia a acelerar (lentamente, é um facto), para se perceber que o paradigma é diferente. Contudo, o desemprego não me assusta. Sei, pela experiência de outros países, que o aumento do desemprego pode ser necessário para aquecer a economia. Pior do que ter desemprego numa economia a crescer é ter pleno emprego sem produção de riqueza. A questão do desemprego só pelo emprego não tem lógica no quadro económico, mas tem toda a pertinência no quadro social. Assim, será necessário um conjunto de instrumentos que estejam ao dispor dos desempregados para garantir a sua subsistência e estimular a criação de valor. Quanto a dizer-se que a Ferreira Leite não precisava de um PRACE, meu caro, essa é a tua maior contradição. É o defender de uma causa pela causa e não pela racionalidade. O Prace era desejável desde o 25 de Abril, momento em que a sociedade ficou com gente a mais para gerir um Estado que já não tinha colónias. O não o ter sido feito antes não é só falta de oportunidade como, sobretudo, incompetência. Numa empresa ela teria sido despedida, razão que pode justificar o não ter encontrado na privada uma solução para o seu futuro.
Quanto à venda da GALP, tens toda a razão. É a 4ª fase de privatização, prevista há muito, e que terá impacto na diminuição da dívida pública. Mas esta medida que tem também efeitos de racionalidade empresarial e de dinimização do mercado, não é a bandeira da reestruturação do Estado. Vender é fácil, difícil é optimizar.

3- Finalmente estamos de acordo num ponto. A nossa economia é débil e a nossa situação nem sempre dependeu de nós. Contudo, foi muito mal aproveitada, e aí devias ter ido mais longe nos teus argumentos. Vender património é simples, mais, enche os cofres do Estado e passa responsabilidades públicas para o sector privado. Mas, e há um mas, este capital foi muito mal aplicado pois continuou a "alimentar o monstro". A primeira vez que tivemos um governo a dizer "estamos de tanga" e a tomar medidas estruturais em que acreditássemos foi agora! Anteriormente diziam-nos que estava tudo bem ou tudo mal, mas não se viam medidas para além da gestão corrente do passivo.
Quanto a Teixeira dos Santos, foi de facto secretário de estado, mea culpa, cargo técnico e não político. Mas não me recordo do ver defender ou criticar o governo de Guterres. A educação não o permite, mas em privado diz outra coisa, estou certo. A política tem muita hipocrisia social, mas este é um pecado de todas as frentes.

4- Quanto às privatizações estamos de acordo quanto ao espírito na lógica dessas empresas, discordamos é na forma que forma utilizadas as receitas que daí adviram. Foi uma oportunidade perdida, de facto, não houve o efeito multiplicador de capital. Espero que este governo seja mais sábio, parece-me bem que sim.

5- Discordo em absoluto. Deve ser dada a possibilidade de sistema misto, mas nunca uma obrigatoriedade. Primeiro, porque os instrumentos de capitalização correm mais riscos que os do Estado (por isso o prémio é mais elevado), transferindo para os pesnsionistas o risco de verem no futuro um rendimento muito abaixo das aplicações feitas. Segundo, porque o mercado não é perfeito e pode-se facilmente comprar gato por lebre. Achas que os bancos e as seguradoras vão perder dinheiro com os clientes se o mercado estiver em baixa??

6- Meu amigo, a tua calculadora está sem pilhas... faz as contas!

7- Quais são as medidas estatísticas que fazem baixar o desemprego? Como sabes, o emprego mede-se por dois lados: o desemprego declarado na Segurança Social e o emprego declarado nas Finanças (IRS). Como fizeste as contas? Descreve-as!

8- Quanto à política discordo novamente. Embora seja um lugar-comum dizer-se que o PS e o PSD são ambos neo-liberais, vemos pelas medidas da Segurança Social que divergem bastante neste tema. Depois, o Sócrates não é comparável ao Marques Mendes, e não falo só da altura.

9- A política é mais do que a economia. A decisão de não se fazer mais na Segurança Social deve-se às reformas estruturais profundíssimas que estamos a viver e, assim, evitar mais contestação social. As medidas lá chegarão, com Sócrates ou sem ele. Concordo contigo quando falas da inconsistência das oposições. De facto, tivemos sempre maus governos e más oposições. É incrível o argumentário das oposições que revela bem o espírito do português médio; tudo serve para se falar mal e, mais importante, nunca estamos de acordo com um adversário mesmo que ele tenha razão. Fazemos futebol da política , e gestão doméstica da economia. Temos o que merecemos, embora agora tenhamos sorte.

O Vizinho disse...

Eu também gosto muito deste ministro das finanças, por acaso.
E, tal como tu, também lhe acendia com muito gosto uma vela lá em Fátima... e até lhe ia levar umas florinhas à campa, já hoje!
Aliás, a um gajo que se propõe despedir 100.000 trabalhadores de uma assentada deviam até fazer uma estátua, porque é certo e sabido que essa cambada dos funcionários são os culpados da crise... é trigo limpo farinha amparo.
E adeus ó crise!
Podemos logo fazer duas OTAs, três TGVs, comprar catorze submarinos, quarenta e sete fragatas... e, quem sabe, repetir a EXPO, ou construir mais estádios de futebol!
Ainda não percebi bem onde é o sector privado vai arranjar maneira de absorver mais 100.000 pessoas (para já!) além das outras centenas de milhares de desempregados, mas quero lá saber, eu até nem trabalho no sector público, que se lixem,com "F".
Deviam ir mais longe, acabar completamente com o estado, entregar tudo aos privados, escolas, hospitais, segurança, segurança social, tudo! Não compete ao estado ter esse género de despesas, os cidadãos é que as devem suportar... além dos impostos, obviamente.
E quem não puder pagar... o que não falta são caixas de cartão e bancos de jardim.
Desculpem lá... hoje estou assim, completamente liberal, até pareceque me saiu o euromilhões...

-PS: João, o vídeo dos leões é montagem, pá !

jorge a. disse...

João,

só para corrigir algumas coisas ao que dizes:

1- aqui nunca chegaremos a acordo. Eu acho que são cortes aqui e ali porque na prática, o governo quer manter o estado social que temos.

2- qualquer economista sério sabe que o aumento da taxa de desemprego no periodo Ferreira Leite era inevitável. Em Espanha para estarem na situação em que estão hoje atingiram taxas de desemprego de 20% - o que de certa forma vem de encontro ao que tu dizes - Mas o que eu digo não é isso, o que eu digo é que a despesa no periodo da Manuela Ferreira Leite ia sempre subir neste periodo, exactamente por causa desta adaptação. É como numa empresa, sempre que se faz uma estruturação gasta-se mais dinheiro no curto prazo, o objectivo é vantagens para o futuro... parte dessas vantagens arrecadou este governo. Eu não disse que o PRACE não devia ser feito, o que eu disse é que a Manuela Ferreira Leite não tinha tempo, nem oportunidade para fazé-lo: se quiseres, é mais ou menos o argumento do Medina Carreira - primeiro corta-se nos custos da função pública, e só depois é que deve-se ir à organização.

3- João as privatizações foram boas em todo o sentido. A aplicação do dinheiro gerado com as mesmas serviu para reduzir a divida pública, ou para melhorar outras empresas públicas para aquando das privatizações destas (que foram no periodo Guterres), pudesse-se arrecadar maior receita. Guterres é que desbaratou o $ que arrecadou com as suas privatizações. A Cavaco só podes pegar por um ponto: se o valor de venda (dos bancos por exemplo) foi o valor mais correcto, ou se situou-se abaixo do valor de mercado. Depois faltou-te o mais importante: a privatização foi boa porque deixou o sector para a iniciativa privada, e, por exemplo, a banca que temos hoje devemos a Cavaco.

4- João, as receitas extraordinárias da Ferreira Leite foram excelentemente aproveitadas: permitiram que não se aumentassem os impostos. É que tás a ver, não te esqueças do IVA a 21%. E eu ainda estou para ver quando é que o governo o vai baixar... por falar em alimentar o monstro, né?

5- João, o sistema misto irá ser uma realidade... e este nunca é obrigatório. Dá sempre a possibilidade dos cidadãos escolherem entre aplicarem o $ no público, ou aplicarem o $ no privado. Pelos menos o sistema misto em que eu acredito, que é o sistema dos 3 pilares defendido pelo Banco Mundial, e que qualquer professor de economia pública ensina na universidade.

6- Tiravas 100 mil funcionários aos quadros do Estado e reduzias imediatamente a despesa para valores iguais à média europeia. A minha calculadora não tem defeito nenhum. Escuta melhor o Medina Carreira, porque é nos quadros deles que eu me baseio para fazer esta afirmação... e não vi ninguém a desmentir os nmr.que ele apresenta - só discordam das medidas que ele apresenta para sair do buraco.

Outros pontos: o PS e o PSD são ambos neo-liberais? Deves estar a gozar comigo... são ambos sociais-democratas, isso é que sim... e a social-democracia é uma corrente do socialismo.

João Mãos de Tesoura disse...

vizinho: meu caro, os teus argumentos são emocionais. Podem até ter um fundo de razão, não questiono, mas atirados assim para o ar são difíceis de justificar. O meu argumentário ficará para novo post.
Abraço


jorge a.costa: continuas cheio de imprecisões e sem dados objectivos.
Quanto à ideologia, meu caro, lametno, mas não sabes o que é a social-democracia, socialismo, liberalismo, neo-liberalismo ou liberalismo social. O erro é tamanho que me vais obrigar a fazer novo post para corrigir o teu desconhecimento. Não o digo de forma arrogante, pelo contrário, mas vivemos numa sociedade onde se fala de muita coisa sem se ter os fundamentos (como deves ser de economia, diria os "fundamentals").
Abraço