Vivemos tempos difíceis. Não só em Portugal, mas num mundo em que a urgência de respostas a questões globais nos desvia dos ideais, da asserção dos valores que nos deviam guiar para um mundo melhor. Os problemas são elementares; fome, desemprego, violência, epidemias e defesa de direitos fundamentais. Importantes, mas elementares. Portugal não foge à regra e atravessa uma reforma profunda. Um processo técnico onde a evidência justifica a mudança, mas que não faz de nós pessoas melhores, antes portugueses com mais igualdade. Muitos dirão que sem pão não haverá fé, concordo, mas sei que sem fé não haverá futuro. Olhemos pois para o presente para adivinhar o futuro.
CONTEXTO: Não há desculpa que sobreviva ao tempo, contudo podemo-nos queixar do passado recente. Herdámos o proteccionismo saloio de um beirão tacanho. Perdemos um império e desgastámo-nos na conquista da liberdade, na procura da estabilidade social e na luta contra o analfabetismo. O país de hoje nada tem que ver com o de há 30 anos; temos um lugar diferente no mundo, um povo mais instruído e maior riqueza. Contudo fez-se ainda pouco, sentem-se as limitações de um país que tarda em afirmar-se.
Se mérito houvesse a reconhecer a este governo, o primeiro seria o de ter colocado o país a discutir Portugal. Não há sector que não seja falado e que não se sinta ter de ser alterado; assembleia da república, ministérios, institutos públicos, autarquias, tribunais, ministério público, forças armadas, forças policiais, hospitais, centros de saúde, escolas, liceus, universidades, ordenamento territorial, obras públicas, protecção civil, banca, media, turismo, sectores automóvel, mobiliário, têxtil, agrícola, etc. Tudo parece mal quando se fala dos outros, todos resistem à mudança quando se fala deles. As incoerências reflectem bem o medo do novo, do desconhecido, da perda de direitos controversos mas dos quais ninguém abdica. O homem é por natureza egoísta e nós não somos diferentes dos outros. Depois vem o pessimismo, esse fado que nos persegue nos maus e bons momentos. Adoramos o trágico, ocasião que nos desperta para a solidariedade. Não estamos moldados para o sucesso, desconhecemos a cultura do poder. Esta falta de ambição e liderança entre os melhores faz com que outros menos preparados nos ditem a nossa sorte. Se no poder central e nas grandes empresas encontramos alguma selecção, já nas autarquias e nas PME reina a mediocridade. E o drama não se prende só com as qualificações dos funcionários, mas sobretudo com a falta de visão e rigor das lideranças. Sabendo-se que a nossa economia é no fundamental o somatório destas actividades de baixo valor, percebe-se o que de muito há a fazer. Felizmente que a comunhão com a Comunidade Europeia produziu alguma osmose, mas não a bastante para nos aproximarmos dos melhores com a celeridade desejada. Depois vem a constante desresponsabilização, a noção de que um compromisso pode ser protelado. Vale-nos o desenrascanço, falhanço completo no planeamento a que chamamos virtude. Contudo não somos os piores, há quem minta para encobrir o insucesso ou ampliar o bom desempenho, basta-nos viajar pela Grécia e Irlanda para inferir outras razões.
CONCLUSÃO: Conhecemo-nos hoje melhor. Somos ainda um povo socialmente iletrado com exaltação dos direitos e sem a devida percepção dos deveres. Temos de mudar de atitude. O país precisa de humildade, trabalho, sacrifício e muita vontade de vencer. Não temos desculpa!

Temos de cantar de galo, mas primeiro precisamos de argumentos!
Flyer: Para quem teve paciência para ler o texto, deixo aqui esta prenda. Façam o download, vale muito a pena!























